DSC_1375“Nascer é receber de presente o mundo inteiro.”  Jostein Gaarder

 
33 anos, casada, mãe do Davi e do Kauai. 
 
Eu nunca soube o que queria fazer profissionalmente. Sentia-me mal por isso.  Eu tinha facilidade para aprender, mas sentia-me como um pato, que sabe nadar, correr e voar, mas não é o melhor em nenhuma dessas coisas. Medíocre. Não gostava de nada o suficiente, não havia entusiasmo.
Eu sempre gostei de fotografia, mas não via nada anormal nisso. Afinal, quem é que não gosta de fotografia?! Eu pensava dessa forma. Mesmo na época da fotografia analógica, eu nunca tive condições financeiras de ter uma câmera, mas eu sempre dava um jeito de fotografar momentos que considerava importantes. Emprestava uma câmera, comprava o filme, mandava revelar quando pudesse, mas não ficava sem as imagens.
Quando me casei, depois de apenas 9 meses de namoro, eu e meu marido abrimos mão de termos uma festa de casamento, de fazermos uma grande viagem de lua-de-mel, dispensamos até muitos móveis da casa, mas fizemos questão de contratar uma excelente fotógrafa para registrar nossa cerimônia de casamento e de fazermos um lindo ensaio de noivos.
Quando engravidei a primeira vez não sabia nada sobre parto e nem que ainda existia parto domiciliar, mas sabia que queria um parto normal. Aos poucos fui me informando sobre o assunto e descobri que o Brasil ultrapassa (e muito) taxa de cesariana aceitável pela Organização Mundial de Saúde, não por vontade da mulher, mas por um sistema que engana com falsas indicações médicas. Descobri também que mesmo um parto normal hospitalar no Brasil é traumático para a mulher, pois sofrem intervenções desnecessárias. 25% das mulheres relatam ter sofrido algum tipo de violência no parto. Por isso decidi ter meu filho em casa, sendo atendida por uma parteira (enfermeira obstetra), e ser transferida para o hospital apenas se houvesse necessidade. Na segunda gravidez esse assunto nem foi discutido, jamais teria um parto hospitalar depois de ter vivido a experiência do parto domiciliar. E o Kauai também nasceu em casa, do jeitinho que eu queria: eu mesma o peguei quando saiu de mim, e o seu irmão estava pertinho e viu tudo!
Meu primeiro contato com a fotografia de parto foi, por acaso, no nascimento do meu filho Davi, que hoje tem 5 anos. A parteira conhecia uma jornalista que queria escrever uma matéria sobre parto domiciliar e me perguntou se ela poderia assistir ao meu parto e fotografar. Eu aceitei.
O nascimento do meu primeiro filho foi algo tão marcante que nunca mais consegui sair da “Partolândia”. Continuei lendo, pesquisando sobre o assunto e compartilhando a minha experiência, e me despertou uma vontade de estar envolvida profissionalmente com partos naturais, humanizados. Pensei em fazer um curso de capacitação e me tornar doula, porém a fotografia me encontrou antes do curso que estava programado.
Quando tive condições de adquirir uma câmera não planejava me profissionalizar, mas em posse do equipamento me neguei a fotografar em modo automático e comecei a estudar fotografia, assistir cursos, participar de workshop, comprar livros e revistas específicos e procurar conteúdo na internet.
O nascimento de uma criança é a coisa mais linda do mundo, por isso não foi difícil decidir que queria fotografar partos humanizados, lindos como o meu, e tudo que envolve esse momento tão único na vida da mulher e da família que recebe um bebê nos braços, como a gestação e os primeiros meses do recém-nascido.
Enfim, depois de 30 anos, pude conhecer um sentimento maravilhoso, que é o de trabalhar fazendo o que realmente amo fazer.
Meu objetivo quando fotografo é contar uma história. Sei que há várias maneiras de se contar uma história. Para mim, não basta descrever os fatos, eu quero contar e contar bonito, quero que tenha ritmo, quero que cada imagem seja um verso, e ao juntar esses versos, ao final, a história seja uma poesia. Os sentimentos e as relações entre as pessoas me inspiram, e quando digo sentimentos não falo apenas do amor, pois o medo de fraquejar também me estimula, a insegurança, o modo que a mulher lida com a dor, a cumplicidade com seu cônjuge, a força, a paciência, a gratidão, e o vínculo que ela criou com sua equipe de parto. É um grande aprendizado.
Fotografar é uma paixão, e fotografar partos é muito gratificante. Sou escolhida para participar de um momento tão íntimo, tão intenso e único e ainda tenho o privilégio, de certa forma, de reviver a minha própria experiência em cada parto fotografado.
 
 
 
Associada ao IAPBP (International Association of Professional Birth Photographers) – Associação Internacional de Fotógrafos Profissionais de Parto.